A Lição de Pintura

A Velha Fotografia / Lição
1: Âmbar
Cristal. Os rostos se prolongam
para um sem quando e sem por quê: para o sem-fim do sempre. Os semblantes
tão iguais às almas, espíritos e rostos frágeis
mas perenes mas iguais. A mão que empunha o lápis, que empunha
o pincel, que acaricia a palheta, a ponta que toca a tela, que toca o barro,
que toca. Sempre se está por ir, sempre se vai, mas elas, as moças
de mãos olhos boca, ficaram; o movimento na mão, o gesto em
andamento, uma coisa sendo sem nenhum nunca desenlace. Agora estão
sempre indo e estão sempre sendo. Seiva no coágulo do âmbar,
cena eterna em preto no branco. Para sempre, muito tempo, muito preto e muito
branco. Tempo demais. Mesmo assim começa. Assim: a lição
de pintura.
|
As coisas querem seu estado de coisas, vocação com que tudo se perpetua. A melodia dorme nas cordas, a imagem descansa no pincel - tudo vem de algo, o fogo da faísca, a água, do céu. As coisas esperam para vibrar na órbita da existência e para, existindo, continuarem a ser. Perenes as coisas geradas pelo toque do humano - o eterno nasce da ponta dos dedos. Todo o digno criado pelo homem fica. Só o homem, surgido da instância suprema, cumpre o desígnio de ir cedo demais. Dele só resta o que criou. As coisas criadas, porque querem seu estado de coisas, ficam. Nelas, por piedade, mora aquele que as gerou. |
Engole-se o tempo para viver. Minuto pastado, hora macerada, o contínuo no côncavo da boca - tragar é existir. Mas existe o tempo em que se regurgita o tempo. Nos lábios e nas mãos, o avesso da ruminância: na música se devolve o engolido. Coisa que se reintegra a outra pelo milagre dos sons. Os surdos e mudos, os sem ouvidos e bocas, mastigam infinitamente o silêncio das horas. Deles, e somente deles, é a música da imagem. |
Na lição de pintura, tu me ensinas para que eu te aprenda. Não: tu me aprendes para que eu te ensine. Melhor: eu te ensino para que tu me aprendas. Quem sabe: tu me ensinas para que eu nos aprenda. A lição de pintura ensina o que nós sabemos de nós. O que vamos ensinar para a lição de pintura? |
|
A paz veio fina feito agulha. Trino agudo de ave. Alegria que se espalha sem que se espere. A partir de um ponto impreciso no meio do peito que é meio do mundo. As gerações como espelhos: tu sou eu e todas somos nós. Laços que superam o mandato do sangue. Fina paz, igual a uma família a que se pudesse, de repente, escolher. Não é necessária a escolha: está-se junto porque o trino agudo da vida quis. |
Feito pássaro pousado no arame da cerca, a cor é a chance da liberdade. Feito a crina do arco sobre a corda, o som é a cor da liberdade. Feito o pincel pousado sobre a tela, a forma é a promessa da liberdade. Feito tudo o que é sempre e infinito, as flores no vestido são a primavera da liberdade. |
Um violinista sobre o telhado, telhas nos acordes, música ao azul. Da caixa, madeira íntima, infla-se o som. No tão triste equilíbrio, o violinista toca e ainda toca. E tocará até que a ave do tempo o salve num inédito vôo. Do barro com que se cobre a casa, ao mesmo barro retornará o que dobra, triste, o arco. |
Textos: Cíntia
Moscovich
anterior :: próxima