A Lição de Pintura
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O rosto de um homem: um nome. Um nome, batismo urdido de tempo. Um rosto e outro rosto, homens com nomes, batizados de antes e depois. De costas, o homem é só agora o que é. De costas, o homem de costas é só um homem de costas. |
A intuição é a inteligência das coisas. Na imagem de água, o quadro faz-se quadro. A mão, na dureza opaca de ser, empresta vida. Imitação do gesto criador: incendiada de forma, a cor vira coisa. Coisa que se percebe com a própria intuição, tensão flutuante da inteligência. A intuição é a inteligência que as coisas têm de serem coisas. |
Que coisa é essa que cai como um raio sobre nossas cabeças, sempre de repente, sempre? Que coisa é essa, líquida como beijo no azul, impossível como beijo sem boca, precária como beijo no doce? Que coisa é essa, que coisa, que marca a ruga do velho, que transluz no olho do moço? Que coisa é essa, que está em todas as mulheres, que, ainda rastejando na tortura das sombras, tanto mais ama a luz? Seis são as mulheres, sem lábio sem azul sem rendição. Um pincel por acariciar a tela, boca de amante, rosto de amado. Começa o sublime movimento. |
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Gente, bicho ou flor: sagrado é coisa viva. Na palheta, dorme o movimento que se empresta ao pincel. Aquarelada, a cor tem o pulso do sopro: tudo o que existe antes de cessar. Porque são abençoadas, as pessoas vivem. Porque é viva, a cor é abençoada. Porque a vida se alimenta da vida tudo o que se cria é sagrado. Tudo o que se cria é igual a gente, bicho e flor. |
Se Deus existe, ele mora numa migalha de silêncio. Se Deus existe, ele mora no entre o claro e o escuro, entre a cor e o negro. Se Deus existe, ele mora na ponta da folha, no poro da pele, no miolo da gota. Ensinam Deus como infinito: um amplo ser de espaço todo. Não é justo nem verdadeiro. Deus, se existe, é modesto - existe no pequeno. No minúsculo, a essência de caber em todo o lugar. Deus é sábio e, portanto, ínfimo. E portanto verdadeiro. |
Espaço sem luz, sombra. Sem a remissão da cor, tudo o que existe é corpo maciço. Os dourados contrariam e explodem em luz: frutos deiscentes a espalhar seus caroços. Tudo, de repente, são romãs úmidas de ouro esperando o marfim do dente. A mulher na sombra espera o sulco do pincel. Espera sua cor na tela. Espera a marca do dente. Espera virar semente de luz. |
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Um espelho a refletir espelhos: constelação infinita. Um homem se repete na tela: homem ou tela, qual é o espelho? A tela refletida no espelho: qual é o homem? A estampa de ontem na imagem de hoje. Na superfície dura e lisa nada há mais que reste, traços roubados à cor do pincel. Um homem refletido na tela refletida no espelho: universo em duas dimensões, corpo cravejado de estrelas. |
O quadro olha a cena, feito coisa que espreita. O quadro olha: jogo copulativo de espelhos, em que se dilui o reflexo e o refletido. No peito, trago a flor dos dias, como quem traz a estampa da sina. A sina de olhar a cena, espreitar o espelho, ser o dia da flor que trago ao peito. |
Todos são iguais quando dormem: são crianças. Sonhar a vida é a brincadeira do sono. Sopro de paz em momento desarmado, o sono acolhe em infância igual bicho e gente e coisa. Bicho e gente são a brincadeira sonhada das coisas. |
Textos: Cíntia
Moscovich