A Lição de Pintura
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É urgente que sejamos
agora, todos nós, a encarnação na tela viva. Séculos
nos ultrapassam, e séculos foram necessários para que
sejamos agora a parte abençoada do mundo - encravados em tela
viva. Como quem mora no sagrado, é preciso que estejamos vivos.
Não como quem imita Deus, mas como quem imita a vida. |
Eis-me, de novo, com a flor ao peito. Grande esforço para que brote a pétala da carne. O caule é generoso em seus brotos: nascemos três de nós. Eu tenho a flor, tu tens a palheta. Mas só uma tem um vestido faceiro feito um girassol. |
Por si só, vento
não tem voz: o vento tem a voz que lhe emprestam. Se vento sibila,
se vento canta, isso são artes de poesia, que não pode
ver nada que seja mudo. A cor também é muda. |
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Idéia abstrata sob forma compreensível. Como conviver com o que não se compreende? Eu só compreendo o que rebenta de vida. Mas qual coisa mais abstrata do que a própria vida? |
Vem com a mãe -
diz a mãe, que me espera de braços estendidos, o olhar
vivaz de quem vai ter a filha no colo. Me nina, minha mãe; me
nina ainda hoje, taluda que sou, grande que sou. A vida inteira me ninou
minha mãe, colhendo-me na dobra de seus vestidos, nas dobras
de seus braços, nas dobras, quantas são!, de seu rosto.
Me nina, mãe, me nina, me ensina, mãe, o jeito de amar
como mãe ama. Ainda não fui mãe, ainda não
tive filhos. Não tenho a quem coloque nas pernas e diga filhinha
amada do meu coração. Não sei o rosto de meu filho,
não sei o contorno de seu corpo, o peso em minhas pernas. Não
conheço o beijo no rosto de meu filho. Me conforto: peço
que a mãe me venha ao colo. De repente, algo maior do que a própria
lição: o rosto de meu filho na fronte de minha mãe. |
Ensina a lição antiga que aprender é lembrar. Nada de novo no mundo, portanto: tudo o que é depende da memória para voltar a ser. A menina que aprende o riscado aprende o que era riscado de antes. Mas cada ser não pode somente ser a memória de outro: quando se lembra, acrescenta-se cores próprias. Cores: essa é a grande novidade do mundo. |
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Eu te faço um retrato de um retrato que pintas. Teu traço no meu, traduzo no braço tua mão, no dedo meu tua idéia. Na hora em que te faço, floresce de mim um outro, e sou justa à sombra anterior de ti. Assim: na hora em que te pinto, eu somos nós, laços de ser um só. Quando se cria, se é igual ao mundo |
Menina - filha com mel - pintou borboletas. Desabrochadas, salpicam de açúcar a tela. Borboletas, mel bom que vem da filha. Tu, neta, vieste de mim pela tua mãe. Tu vieste dela: açúcar, borboleta. Mel bom que vem da vida. |
Textos: Cíntia
Moscovich
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